terça-feira, 13 de agosto de 2013

“ANDANDO, SORRINDO E PAPEANDO”, ARTIGO DE NELSON FEITOSA JR

Que bom que eu tinha uma folga naquela tarde. Fui andar pelas ruas principais da minha Petrópolis, curtindo um clima ameno, de primavera. Gosto de perambular pela Avenida 15 (recuso-me a chama-la de Rua do Imperador...) e pela dezesseis de março. Vou andando, passeando e comprando uma coisinha aqui, outra ali, conforme a necessidade ou movido pelo raio do consumismo. Vou tentando lembrar-me do que falta lá em casa, do que preciso estocar (sabonete, pasta de dentes, umas frutas, tela fosca para o celular; tanta bugiganga que nos impomos nesta sociedade de consumo...) e conforme ando e faço compras, vou tendo o prazer de encontrar os velhos amigos e conhecidos. Petrópolis, cidade pequena, tem essa vantagem: a gente encontra sempre pessoas de nosso conhecimento e amizade. Na galeria do Edifício Profissional, logo me reuni ao Gilberto, meu “dentista de canal”, além de amigo de tantos anos. Tomava café no bar quase em frente aos elevadores. Começamos um papo ameno, divagando por tantas coisas que da maioria não me recordo. Recordo-me bem, no entanto, da satisfação que tenho ao encontra-lo e puxar um papo com ele. Conversa vai, conversa vem, começamos a filosofar sobre a vida e a morte: Eu: “a fulana diz sempre que já viveu o suficiente; alega que já está pronta para passar desta para a melhor!” Ele: “Cara, eu não! Acho que vou ficar pra semente; ainda tenho muito que viver; se a morte é descanso, prefiro viver cansado...”. E a troca de ideias, piadas, risos e afagos mútuos continuaram até a chegada do Maurício Aliman, que ia passado com sua pressa habitual, quando foi puxado para o nosso convívio por mim. “Grande Maurício...” “Feitosa, meu cronista favorito...” e o papo recomeçou com força e entusiasmo. De repente, chega o Divany, velho Divany mais do que amigo; meu professor na prática da pediatria, pai de dez filhos (que inveja!), inclusive do Caíque, aquele moleque de quem eu tanto gosto e me identifico. E a falação tomou mais uns tantos rumos, com muito riso e descontração. Abraços e até a vista. Continuo no trottoir, agora, pela dezesseis. Avisto ao longe o meu caro amigo Didi e me acerco do mesmo. “Didi, você está mais velho que Matusalém em idade, mas parece mais moço que um garoto! O que você faz para não enrugar, ficar com essa cara que não muda há décadas?” Resposta: “ É a genética; meu pai também era assim...” e me conta, pela enésima vez o quanto sente falta da esposa, falecida há algum tempo. Procuro animá-lo: “Você precisa encontrar alguém, meu amigo...” E ele me conta de um encontro com uma pessoa que o atraiu, e foi correspondido por ela. “Mas mora longe, não ia dar certo...” É a geografia que atrapalhou... E continuo andando, até que logo depois encontro o velho Medina: “Medina, ainda estás vivo, seu danado?” Ele: “Pergunto o mesmo de você...” e começamos a trocar figurinhas; velho amigo, que me aguentava na sua contabilidade da minha firma do Centro de Vacinação, nas declarações para o famigerado imposto de renda. Mais uns metros adiante, virando a esquina da dezesseis com a Irmãos D’Ângelo, dou de cara com o Nakao, amigo anestesista dos velhos tempos. Professor emérito de anestesia, filósofo como eu, quantas vezes conversamos sobre a vida e a medicina... Mais alguns passos e me encontro com o X, (a memória esquecida, parente do “Alzy” não se lembra do nome, mas lembra perfeitamente do quanto gosto dele) e quando falamos também sobre a nossa vida efêmera sobre esta terra, saiu-se com esta: “Descobri como dar um jeito na morte!” Eu, surpreso, pergunto: “É mesmo? Como?” Ele me responde candidamente: “Fácil: fiz um empreendimento que resolve essa situação desagradável” Insisti na pergunta, ansioso por saber que milagre era aquele: “Me conta logo que estória é essa!” Termina ele dizendo, sorrindo maliciosamente: “Fácil: construí um cemitério! Está resolvido o problema da morte e do morrer. Se você bater as botinas, eu enterro e não se fala mais nisso...” E assim, de andanças, sorrisos e papos, vivi uma tarde deliciosa, que terminou com um chocolate na Katz em companhia da mulher que eu amo e que me faz sorrir de felicidade.

Médico Psicoterapeuta

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